sábado, setembro 11, 2010
terça-feira, agosto 31, 2010
sexta-feira, novembro 13, 2009
Completamos nossa ultima perna de 2009, Opua, Nova Zelandia:
Posição: S35 18.900 E174 07.251, 14/11/09, 11:00h Local (UTC +13)
Aqui estamos, em Opua na Nova Zelândia, depois de uma chegada dificultada pelos ventos fortes e contra o rumo que tínhamos que ir, e por correntes que não conhecíamos que nos desviavam o tempo todo do nosso rumo. Em cima disso, as ondas estavam altas e fortes, e cobriam o barco de água, dificultando nossa travessia, pois desviavam o barco do rumo além de provocarem uma enxurrada dentro do barco. Do lado de boreste, armários, roupas, camas, painel elétrico, paiol, tudo constantemente encharcado de água salgada, mais uma vez demonstrando a total falta de responsabilidade do estaleiro que construiu o Matajusi. Vamos acertar esses problemas enquanto aqui na Nova Zelândia, mas fato é que não deveríamos tê-los em primeiro lugar.
Todos os barcos que chegaram juntos conosco tiveram o mesmo problema de não conseguir velejar no rumo correto. Alguns testavam suas bussolas, outros iam para a mesa de navegação refazer a rota, outros davam bordo mudavam o rumo, tudo em uma tentativa de entender porque não conseguíamos seguir adiante. Mas, no final, todos chegaram, congelados, e no nosso caso, também encharcados.
Eu ainda não tenho as cartas Navionics para Nova Zelândia, e as cartas que tenho Garmin e CMap estavam completamente fora, então, como entramos de dia, vim consultando uma carta de um panfleto que pegamos na Marina Tainá em Papeete, de Opua. Agora vou comprar as cartas que me faltam para completar a viagem de volta ao mundo, incluindo Nova Zelândia, Austrália, Indonésia/Indico, e África do Sul dos dois lados, Indico e Atlântico.
Chegamos a Opua as onze e meia da manha do dia doze, e mesmo sem ser supersticioso, evitei entrar no dia seguinte, sexta-feira dia treze! Na reta final para o píer do Customs, onde ficaríamos em quarentena até passarmos pela vistoria, fritamos meus dois últimos filés de carne Uruguaia comprados congelados em Raiatea. Estavam deliciosos e seriam jogados fora durante a vistoria. Na vistoria, recolheram tudo que tinha semente, carne ou osso, mas já havíamos doado quase tudo que tínhamos para as famílias pobres de Tonga. Mesmo assim, encheram um saco de lixo dos grandes com caçarolas de pato em lata, molhos de macarrão com carne moída, feijões, grãos de bico, lentilhas, frutas e verduras.
Depois que passamos pela vistoria do barco e do casco, chamamos pelo VHF radio a marina de Opua para ver onde iríamos atracar, e fiquei surpreso de saber que eles estavam com a última vaga. Todos me disseram pelo caminho que eu não precisaria fazer reserva, pois tinha lugar para todo mundo! No final, fiquei na vaga D13 até hoje, e amanha mudo para outra marina, a Ashby's, aqui pertinho. O Beduína e o Canela estão lá.
Estou trabalhando muito no barco e nos contatos com profissionais locais e marinas, além dos emails, então vou escrever mais depois, contando sobre todos os outros brasileiros que encontramos por aqui. Amanha temos churrasco na casa da Patrícia, outra brasileira que mora por aqui, e vamos conhecer ainda mais brasileiros. Essa vida social está ótima, mas atrapalha minha rotina de trabalho para hibernar o barco até nosso retorno em Março de 2010...
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segunda-feira, novembro 09, 2009
Quinto dia da travessia para a Nova Zelandia:

Posição: S32 14.397 E175 17.929, 10/11/09, 13:08h Local (UTC +13)
Estamos cansados! Depois de dois dias, continuamos batendo muito e o vento esta contra o nosso rumo desejado para Opua, então vamos em zigue-zague. Além disso, o vento muda de direção e intensidade o tempo todo, difícil de ajeitar as velas assim, então, deixo as velas reguladas para a orça (máximo contra o vento possível) e mudo a direção do barco para acompanhar a mudança do vento.
Estamos navegando ajudando no motor, mas descobri ontem que o tanque de boreste tinha somente uns vinte litros. Achei que estava cheio e não completei com diesel em Nuku Alofa, então temos que ser mais conservadores no uso do diesel antes de chegarmos a Opua. Que vamos ter que empurrar no motor não tem a menor duvida. Todos os barcos que já chegaram ajudaram no motor. Alguns nem vela usaram, foram direto no motor. Também, quando foram, na semana passada, estava calmaria a travessia toda. Esses não sofreram nada. Nós que paramos no Minerva acabamos pegando uma daquelas condições pela qual a Nova Zelândia é conhecida pelos navegadores. Parece que os deuses de lá não querem que cheguemos... Mas, não somos os únicos... tem mais de trinta barcos na mesma travessia hoje, alguns mais para a frente e outros mais para trás.
O problema de mar bravo e irmos na orça adernados para bombordo (lado esquerdo) é que nessa posição entra muita água pelos vazamentos ainda a serem encontrados e corrigidos no barco. Hoje de manha tiramos mais de uma panela cheia de água salgada de dentro da fralda de plástico que adaptei dentro do painel de eletricidade! Que saco! Eu tenho que viver com a incapacidade e a irresponsabilidade do estaleiro que escolhi para construir meu barco! Eles sabiam que eu ia fazer uma volta ao mundo e eu insisti para eles capricharem nas vedações!!! Ninguém merece!
Estamos a cento e oitenta milhas de Opua, mas no momento só estamos conseguindo VMG (velocidade medida entre minha posição e a posição que quero ir) de três nós. Mais umas vinte milhas e vou dar o bordo (virar o barco para o outro lado do vento) para o leste de novo, torcendo para aumentar meu VMG para Opua. De qualquer forma, não parece que chegaremos lá amanha, ou se chegarmos, deve ser à noite. Sem problema, pois Opua é muito bem sinalizada, então entro a noite mesmo.
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domingo, novembro 08, 2009
Quarto dia da travessia para a Nova Zelandia:
Posição: S30 59.213 E175 50.230, 09/11/09, 11:04h Local (UTC +13)
Ontem assistimos dois filmes enquanto estávamos na calmaria, depois vimos as nuvens chegando pelo Sueste, e já deixamos o barco preparado para os dois pirajás (squalls) que vinham se aproximando, um de cada bordo (lado) do barco. Fui logo para o segundo riso da mestra, e já estava sem genôa, somente com a trinqueta bem caçada, então deixei assim. No final, não pegamos muito vento, pois estávamos bem no meio dos dois squalls, mas o vento vinha de todas as direções, impossível de ajustar as velas para aquilo, então deixei a mestra no meio, com o traveller meio solto dos dois lados assim ele podia correr sozinho. Ficou indo para lá e para cá por um bom tempo, e aí começamos a pegar um vento de dez nós de Sueste. Mudei o rumo e as velas para aproveitar melhor esse vento, e ficamos assim até hoje de manha, quando o vento foi mudando para Sul, e depois para Sul-Sudoeste, onde estamos até agora. Balançamos muito a noite toda e não conseguimos dormir bem dentro da maquina de lavar roupas! Muito frio lá fora e toda vez que saímos da cabine é uma rotina enorme de vestir tôca, macacão próprio para esse tempo e a prova d'água, e colete com boné a prova d'água. Às vezes temos que sair sem essa rotina toda, como por exemplo, quando o barco aderna muito e temos que ir soltar o traveller ou a escôta da mestra, e logo em seguida começam os espirros!
A temperatura da água está a vinte graus, às vezes dezenove, e a do ar vinte e três e baixando na medida em que vamos indo mais para o sul. Não tínhamos planejado estar nesse frio, e não trouxemos roupas apropriadas, vamos ter que comprar na Nova Zelândia. Outro erro foi tirar o aquecedor elétrico do barco, pensando que não iríamos precisar mais! O usávamos quando estávamos em São Francisco do Sul durante o inverno, na revisão do barco pelo estaleiro.
Estou ajudando no motor, pois Opua fica a menos de trinta graus desse vento, esperando que a previsão esteja certa e que o vento mude mais para Nordeste enquanto vamos nos aproximando de Opua, assim vamos corrigindo a rota para a aterragem.
Estamos a trezentos e sessenta milhas de Opua, e estimamos nossa aterragem na Bay Of Islands, na ilha Norte da Nova Zelândia para o dia onze de Novembro, com mais umas sessenta horas de navegação.
O Bicho Vermelho já chegou a Opua, e nos passou um email descrevendo a revista do barco e procedimentos de entrada na Nova Zelândia. O Sarava esta chegando essa manha. Os dois foram direto de TongaTapu para Opua, não parando no Minerva como nós outros.
Essa noite, quando não conseguia dormir, fui rever os comentários que chegam no blog do Matajusi. Com exceção dos do pessoal ligado ao estaleiro, 99% são positivos e me inspiram e motivam a continuar descrevendo o melhor que posso essas aventuras. No início de Dezembro voamos, eu e a LiLian para SP, e vou fazer varias palestras e apresentações de fotos e dos filmes que temos até agora. Vou postar no blog as agendas para informação daqueles leitores que queiram assistir a alguma palestra. Aos que quiserem ser informados sobre nossa agenda, deixem seu email com seu comentário no blog, assim os incluímos na nossa lista de distribuição. O blog parece estar agradando, pois os acessos têm subido a cada mês e já ultrapassamos os três mil acessos/mês. Obrigado pelo seu interesse nas nossas aventuras...
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sexta-feira, novembro 06, 2009
Segundo dia da travessia para Nova Zelandia:
A Nova Zelândia já passou para horário de verão, então vamos continuar com UTC +13, igual ao horário de Tonga.
Estamos em calmaria quase que total, com uma pequena brisa abaixo de quatro nós vindo quase que no nariz, então estamos indo no motor, a mil e oitocentos giros, que deve dar um consumo de um ponto oito litros por hora. Estou somente com a mestra inteira, bem caçada com o burro e com retranca no meio do barco para ajudar a empurrar o barco um pouco. O dia esta absolutamente lindo, com mar de almirante, uma pequena ondulação longa ajudando a empurrar o barco para a frente, sol forte, céu e água azuis, temperatura da água de vinte e três graus e do ar de vinte e seis graus.
Alguns barcos já com problemas, o Carinthia quebrou a retranca, e o Nine Of Cups esta com vazamento grande de óleo diagnosticado como anel quebrado, e acabou o óleo de reposição que tinham a bordo. O Cat Mousses e o Alexander VI desviaram da rota em que estávamos e seguiram quarenta e cinco milhas a Oeste para suprir o Nine of Cups com os quinze galões combinados de óleo que tem a bordo. Eu continuei na rota mais a Leste para testar como vão ser as diferentes rotas de chegada na Nova Zelândia. A maioria dos outros barcos esta vindo pelo Oeste, pela rota sugerida pelo Jimmy Cornell.
Estamos devorando toda a comida a bordo, pois na chegada à Nova Zelândia eles jogam fora tudo que sobrar. Precisamos promover essas regras para barcos da Nova Zelândia que chegam ao Brasil! Isso promove a economia local, pois todos os barcos que chegam tem que provisionar quase que do zero de novo. A ABVC poderia trabalhar nesses lobbies, aliás, a ABVC poderia reconhecer e divulgar os muitos barcos brasileiros que estão em cruzeiro pelo mundo. Fica aí a sugestão.
Continuando com equipamentos a bordo, as bombas e o aquecedor comprados na Regatta continuam funcionando bem, com exceção da bomba de água salgada, mas pode ter tido um engraçadinho no estaleiro que resolveu abri-la e não fechou direito. Desmontei inteira, toda enferrujada, e refiz, engraxando tudo e por incrível que pareça, ainda funciona.
O Duo Gen não deu nenhum trabalho e o único problema foi na instalação que eu fiz, onde uma conexão precisou de re-aperto. Os rádios funcionam bem, mas a instalação do VHF no mastro precisa ser trocada. Algo esta errado na instalação e não consigo receber bem a distâncias maiores. O meu radio de reserva no cockpit, com antena em cima da targa, funciona muito bem, mas a instalação da antena foi eu que fiz.
O radio SSB, apesar de ter sido lavado com água salgada, em um dos muitos vazamentos deixados pelo estaleiro, é um dos melhores equipamentos a bordo, pois tem uma transmissão e recepção formidáveis e em geral sou um dos melhores rádios nas NETs SSB. A instalação do Pactor modem e o uso do Sailmail salvou a gente de morrer de tédio, pois estamos varias vezes por dia em contato com família, amigos e empresas.
A pia onde usamos água salgada esta completamente enferrujada, assumo que o material era de segunda. O trabalho de aço inox feito pelo Marcelo no Píer 26 esta perfeito até hoje! Usou aço de ótima qualidade, conforme o que paguei.
O alternador Balmar funciona até hoje, mas pela metade. Chegando na Nova Zelândia vou ver o problema. Desconfio que a instalação errada que o eletricista do estaleiro fez no inicio danificou esse equipamento, pois deveria carregar até cem amperes com as baterias vazias, mas no máximo carrega quarenta.
As placas solares são nota dez, e mantém tudo funcionando de dia e com bateria suficiente para passar a noite, depois de dias ensolarados. O Matajusi é até hoje o barco de melhor composição de energia X consumo que encontramos pelo caminho. As placas solares mantêm as baterias carregadas, e só tenho duzentos e vinte e cinco amperes no banco de serviço, o menor que já encontrei pelo caminho. O gerador de arrasto carrega as baterias durante a noite, quando em travessias. Todas as lâmpadas são de LED, mas como dito anteriormente, setenta e cinco por cento das de marca Optolamp já queimaram e algumas mais de uma vez. Acredito que o regulador usado pela Optolamp não previa alterações de voltagem entre onze e quatorze volts, muito comum em barcos a vela, e infelizmente eles nunca me deram qualquer atenção quanto aos problemas que tive.
O watermaker apresentou um pequeno vazamento em umas das tubulações originais, mas depois de um aperto ficou normal de novo. Outro equipamento formidável que tenho no Matajusi. Usa pouca energia das baterias (8ª), e gera até quarenta litros de água por hora. A água que bebemos hoje é dessalinizada por ele e deliciosa.
A instalação no painel de controle do Yanmar do lado de fora da cabine não foi uma boa idéia, pois hoje nenhuma lâmpada funciona e esta sempre com algum mal contato. Na entrada da cabine teria sido uma opção melhor.
As bussolas são de brincadeira e não tem a menor serventia para travessias ou mesmo cruzeiro. Preciso comprar novas e trocar.
As gaiutas Lewman, com exceção de um fecho que quebrou e não consegui a peça correta para trocar, então improvisei, não deram problemas maiores.
O bimini e dog-house feitos pelo Alex do Píer 26 estão completamente destruídos, mas o material continua bom, foram as costuras que estão abrindo todas, provavelmente uso de linha não própria para esse trabalho.
As velas da North Sales continuam boas, mas algumas costuras também estão abrindo. Preciso fazer uma manutenção nelas na Nova Zelândia.
A hélice da Kiwiprops esta dando trabalho, pois emperra na posição de ré e precisa acelerar forte para fazê-la virar para a frente de novo, e isso as vezes da um tranco na transmissão que preferia evitar. Vou revisar chegando na kiwiland.
O guincho, depois da troca das peças quebradas pela instalação errada feita pelo estaleiro, mais a re-instalação feita por mim, mais a troca da corrente, não deu mais nenhum trabalho.
O bote vai ser trocado na Nova Zelândia por um bote mais apropriado para cruzeiro.
Bom, hora de almoçar e ir ao cinema...
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Primeiro dia da travessia entre Minerva e Nova Zelandia:
Exibir mapa ampliadoPosição: S26 02.000 E179 28.000, 06/11/09, 16:05h Local (UTC +13)
Depois de navegar cento e quarenta e oito milhas desde ontem, quando saímos do Minerva Reef Sul, ainda temos seiscentas e dezessete milhas pela frente antes de chegarmos à Nova Zelândia. O vento tem ajudado, mantendo entre dez e dezoito nós nessas primeiras vinte e quatro horas e estamos conseguindo uma boa singradura, com mares calmos e dias ensolarados.
A previsão diz que teremos pouco vento nos próximos dois dias, e depois um dia de vento na cara, mas isso não me preocupa, pois quando nossa velocidade baixar dos cinco nós, eu ajudo com o motor e temos diesel suficiente para chegar à Nova Zelândia somente no motor.
Na nossa frente vão o Bicho Vermelho e o Sarava, que fizeram rota direta sem parar no Minerva, e atrás vem o Canela, Pajé e Beduína. Pelo SSB falamos duas vezes ao dia na freqüência 8143 USB, as 9h e 19h local (UTC +13) então sabemos que todos estão bem e animados com esse mar calmo, mesmo com pouco vento.
Hoje fui o Net Controller da Big Mama's Net, minha primeira vez como Net Controller, usando a freqüência oito alpha e oito bravo como backup, respectivamente 8294 e 8297. Cadastrei a posição e condições de vinte e três barcos, e o único problema foi uma NET Australiana que pisou em cima da nossa NET, então mudei para a freqüência de backup no meio da NET.
O Cat Mousses e o Alexander VI, meus companheiros de mergulhos, que saíram do Minerva Sul umas quatro horas antes de mim, pois tive algumas manutenções para fazer antes de partir para uma travessia que poderia usar acima de duzentas horas de motor, se fosse o caso, estão à algumas milhas na minha frente, no mesmo rumo de 200° que estou indo. Esse rumo me leva direto para Opua. Muitos outros barcos usam um rumo onde eles primeiro vão para Oeste, e só viram para Sul quando chegam a uma posição diretamente ao norte da Nova Zelândia. Observando o Grib (previsão) todos esse dias, cheguei à conclusão que poderia ir mais a Leste e pegar ventos melhores. Ainda vamos ter que ver se essa estratégia vai dar certo, pois tem uma corrente de Oeste para Leste no norte da Nova Zelândia que pode me empurrar mais para fora da rota direta, ou posso pegar ventos do quadrante Norte, o que me empurraria também para fora da minha rota direta, mas se esse for o caso, ajudo no motor.
De manutenção, tive que trocar o óleo do motor, pois estava grosso e não seria bom ir nessas condições se tivesse que motorar muito durante essa travessia. Quando abri a tampa para limpar o filtro de combustível, aproveitei para dar uma olhada geral, e percebi a correia do alternador secundário, o Balmar, meio solta. Quando fui apertar, notei que o parafuso que segurava o braço de ajuste do alternador havia quebrado. Deu um trabalhinho, pois o parafuso quebrado ficou dentro do suporte, e tive que improvisar para tirá-lo de lá. Mas no fim deu tudo certo e quatro horas depois eu estava partindo do Minerva Sul...
Sempre critico o que acontece de ruim no meu barco, e sou muito conhecido (acho até que odiado por uns) por isso, e quero também comentar sobre os equipamentos que não me deram trabalho e funcionaram conforme minha expectativa. O mastro e retranca do Matajusi são da Farol, o estaiamento, enrolador, carrinho, traveler, burro, moitões e catracas são da Nautos, o motor é Yanmar e não tenho a menor reclamação desses equipamentos. Acho que o estaiamento é um dos pontos fortes do Matajusi, pois agüentou muito bem todos os meus maus tratos por falta de experiência, principalmente no começo.
Bom, tenho mais uns quatro a cinco dias pela frente, então vou parar por aqui e guardar um pouco para os próximos dias...
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quinta-feira, novembro 05, 2009
Ancorado no Minerva Reef do Sul:
Posição: S23 56.599 W179 07.156 05/11/09 10:53h Local (UTC +13)Depois de comer um fusili com lagosta delicioso, dormimos no Minerva do Norte, relativamente bem, pois quando a maré enche, alguma ondulação passa por cima da barreira de coral e acaba balançando os barcos ancorados dentro do recife.
Levantamos ancora as oito da manha de ontem e velejamos ajudando no motor para o Minerva do Sul. Passamos pelo passe sem qualquer problema, pois a carta Navionics que eu uso a bordo descreve perfeitamente o passe e os cabeços em volta e pelo caminho da ancoragem a leste dentro do recife. Ancoramos do lado do Cat Mousses e do Alexander VI, e fomos nos preparar para um mergulho, onde acreditávamos iríamos pegar muitas lagostas.
Mesmo na maré baixa conseguimos entrar dentro da laguna do lado sul do recife, completamente cercada por uma barreira larga de coral. Aproveitamos os pequenos canais feitos pela saída da água das ondas de fora do recife que acabam despejando alguma água dentro da laguna para ir empurrando o bote com os remos para dentro. Atravessamos a laguna e fomos procurar algum lugar com uma parede de coral perto da barreira, mas não achamos, somente areia que acabava ficando muito raso e sem paredes para as lagostas ficarem.
Mergulhamos em vários cabeços no meio da laguna, e vi muitos peixes grandes, inclusive um mero. Deixei-os quietos por lá e fui caçar uma garoupa menor, de uns oito quilos e uma lagosta quase branca de antenas bem compridas. Procurei muito, em mergulhos rasos, médios e profundos, e nada das lagostas.
Resolvemos atravessar de volta e ir mergulhar nos passes. Lá peguei mais uma lagosta, um badejo de uns seis quilos, e aí começou uma farra das boas, quando um tubarão cinza comum no Minerva do Sul começou a mostrar sinais de agressividade, quando eles chegam perto e começam a se contorcer. Como a Danny tinha encomendado um tubarão para que eu pudesse ensiná-los a limpar e cozinhar, resolvi que aquele era do tamanho ideal para esse fim, e, na sua próxima demonstração de agressividade, atirei atrás da barbatana lateral, com ele de lado para mim. O arpão atravessou, e vi que ele estava bem preso. Ele ficou se debatendo muito, e espalhando sangue pela água. Nisso pedi a arma do Jack e dei mais um tiro na cabeça, mas não entrou e ele disparou para cima do Rene, que o manteve a distancia segura com uma fisga que ele tinha na mão. Puxei a linha do arpão ate conseguir ficar com o arpão na mão, onde poderia controlar melhor os movimentos dele, e peguei o meu arpão havaiano e atravessei de guelra a guelra com ele. Agora, com dois arpões espetados eu tinha um controle melhor da sua boca, que não parava de tentar morder algo! Trouxe-o mais para perto, e com a faca fui dando facadas dentro da guelra, espalhando ainda mais sangue pela água, e não deu outra, o papai tubarão e a mamão tubarão chegaram com mais três irmãos crescidos para checar o que estava acontecendo de diferente naquele passe.
Pedi para todos subirem no bote, e continuei tentando matar o bicho, enquanto os outros cercavam e diminuíam o circulo. Quando eles chegavam muito próximos, eu batia com o pé de pato na superfície da água e isso os espantava por um tempo, mas eles foram se acostumando com aquilo e foram chegando mais próximos. Eu não queria entrar no bote com um tubarão vivo, pois alem do Jack e do Rene, tínhamos dois filhos do Rene a bordo, além da possibilidade do tubarão morder o bote, então continuei, e com o arpão havaiano batia na superfície da água próximo de onde estava vindo o papai deles. Isso o afugentava de novo.
Consegui tirar o arpão com o qual o havia segurado, e fiquei somente com o havaiano atravessado de guelra a guelra, e passei ele para o Rene já a bordo do bote. Olhei para baixo e vi que os outros estavam ficando agressivos e chegando muito perto para meu conforto, então subi a bordo. Acabamos de matar o bicho com algumas facadas atravessando a cabeça, e retornamos para o Cat Mousses para limpar aquilo tudo e preparar a janta comunal. O Rene havia pego umas seis conchas gigantes e com os músculos delas, o Jack preparou uns aperitivos deliciosos. As lagostas foram servidas cortadas em pedacinhos, para comer com maionese, e o tubarão cozido em postas com molho de tomate alho e cebola. No final, estava tudo uma delicia e ficamos entre comendo e batendo papo até depois da meia-noite.
Retornamos ao Matajusi e ainda fomos preparar um yogurt para dar para a Danny no dia seguinte, e um chá quentinho para tomarmos antes de ir dormir.
Hoje as sete e pouco o Rene já estava no radio chamando todos para partir, mas eu ainda preciso fazer umas manutenções antes de passar uma semana ou mais no mar, então eles acabaram de partir e eu fiquei sozinho nesse paraíso único, onde só se chega de barco, um desses lugares e alguns amigos que adicionam mais horas de prazer na nossa viagem...
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terça-feira, novembro 03, 2009
Ancorado no Minerva Reef do Norte:
Posição: S23 39.459 W178 54.036, 03/11/09, 18:34h Local (UTC +13)Completamos a travessia entre TongaTapu e Minerva Reef no tempo estimado, chegando ao Minerva hoje as 14:00h. Foi chegar, ancorar, comer um almoço rapidinho, feito com aquele mahi-mahi da foto, e ir mergulhar, o que me rendeu uma bela lagosta. Amanha eu serei o NET controller da Big Mama's NET, na frequencia 8294 USB, as 10:00 (UTC +13). Vou ter que rodar a NET a caminho do Minerva do Sul.
Vamos saborear a lagosta com um fusili para a janta, dormir, e levantar ancora amanha cedo para mudar ancoragem para o Minerva do Sul, a vinte e duas milhas daqui. Para lá foram o Cat Mousses e o Alexander IV, e combinamos um mergulho no meio do dia. Vamos tentar pegar mais lagostas. Olhem pela foto, elas são enormes por aqui. No mergulho vi muitos tubarões galha branca, mas eles parecem ser bem tímidos, sempre fugindo de mim. Mergulhei somente com um arpão havaiano, sem elástico, e somente para pegar lagostas, mas acabei cutucando uns tubarões que estavam dentro das tocas onde eu fui procurar lagostas, para eles saírem da frente. Em um dos mergulhos, vi uma tartaruga que tinha acabado de pegar uma lagosta. Ela já tinha comido o corpo e cabeça, e estava devorando as pernas. Agora, vou preparar a lagosta com fusili...
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segunda-feira, novembro 02, 2009
Primeiro dia da travessia para Minerva Reef:

Posição: S22 49.000 W177 32.000, 02/11/09, 18:44h Local (UTC +13)
Com ventos entre dez e vinte nós vindos do sudeste, e ondas entre um e quatro metros, também do sudeste, navegamos em um mar hora calmo hora crespo, em uma media de 4,7 nós/hora. Estamos em um grupo de cinco barcos, três brasileiros e dois canadenses. Conosco navegam o Beduína, o Pajé, o Cat Mousses e o Alexander IV. Tempos mais oitenta milhas para chegar ao Minerva Reef do norte, e estimamos aterrar umas oito da manha de amanha. Tudo e todos bem a bordo. A temperatura continua abaixando, tornando incomodo ficar no cockpit. Tomar uma onda, nem pensar, então ficamos mais tempo dentro da cabine. Mais de trinta barcos estão a caminho da Nova Zelândia por essa mesma rota, alguns parando no Minerva Reef, outros seguindo direto para Opua. Serão mais cinco ou seis dias de Minerva até Opua.
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sábado, outubro 31, 2009
Partindo para Nova Zelandia:
Posição: S21 07.583 W175 09.722 01/11/09 07:15h Local (UTC +13)
Em mais meia hora partimos para nossa ultima perna nesse ano, a Nova Zelândia, com uma parada no Minerva Reef, um recife desabitado a um terço do caminho para Nova Zelândia.
Fico impressionado quando penso que chegamos até aqui por nossa conta e risco! Como é grande o nossa terra! No final desse ano terei navegado mais de quinze mil milhas, mais de duas mil horas, e aqui estamos.
Quando penso pelo que passamos, percebo que com a experiência fomos dominando melhor as situações, e olhando daqui, o quanto não sabíamos quando saímos de Natal para nossa primeira perna em águas internacionais. Na memória mantemos muitos momentos, tanto de preocupação quanto de prazer. Nossa maior tempestade foi aquela onde os ventos mantiveram acima dos quarenta nós por uma noite inteira e mais meio dia, no caminho entre Galapagos e Marquesas. Nossa pior ancoragem fui na nossa chegada em Fatu-Hiva nas Marquesas, onde nossa ancora prendeu na corrente da ancora do Independence e os barcos acabaram se chocando. Nossa noite mais mal dormida em ancoragem foi quando a ancora não prendia ao fundo, com ventos de quarenta nós, em Huahine, mas teve também a nossa segunda noite em Ilês Du Salut, na Guiana Francesa, onde havíamos nos escondido da primeira tempestade que passamos no mar, pois ancorei no lugar errado e o barco sacudia com nunca havíamos visto antes. Nosso pior mar foi na costa as Colômbia, chamado o quinto pior mar do mundo. Poucos cruzeiristas passaram por lá sem algum apuro. E estivemos no meio de um Tsunami onde morreram mais de cem pessoas, mas nós não sofremos qualquer efeito dele por estarmos em alto mar, e ancorados dentro de um recife, do lado contrario onde a onda deve ter batido.
Mas também tivemos os momentos muito bons, como participar da dança dos Kunas em San Blas, nossa estada em Fatu-Hiva, os inúmeros mergulhos, e todos amigos que fizemos por onde passamos.
Vamos agora enfrentar o ultimo desafio do ano, que é a navegada para Nova Zelândia. Serão uns oito dias, com mais um dia de ancoragem no Minerva Reef, e a tendência dos ventos parece boa. Muitos barcos seguiram para lá ontem, e decidimos ficar para ouvir pelo radio como esta sendo a viagem deles. Instituímos uma NET pelo SSB e serei o NET controller nas quarta-feiras. Pela NET ficamos sabendo de todas as condições de todos os barcos, as vezes ajudando um barco em apuros, mas sempre levando em conta a situação de mar e vento dos barcos mais a frente ou as vezes mas para trás, para tomarmos decisões em mudanças na nossa rota, para evitarmos uma situação ruim e procurarmos bons ventos e mar mais calmo.
No dia trinta, fomos à festa no Iate Clube de Pangaimotu, onde o restaurante Big Mama faz uma festa para comemorar o aniversario da Big Mama. Os tripulantes de mais de trinta barcos estavam presentes lá e foi uma festa muito divertida, com boa comida, servida de graça pelo restaurante, apenas com a bebida paga.
Fizemos os papeis de saída, com o custo total de quarenta dólares tongueanos, equivalente ao nosso R$. Provisionamos o barco para a nossa ultima travessia do ano, e distribuímos algumas das nossa provisões que não iríamos consumir ate Nova Zelândia entre outros barcos, alem de deixar algumas para o pessoal de Pangaimotu. Na Nova Zelândia eles jogam fora quase toda a comida a bordo, além de coisas construídas de palha, sementes, conchas entre outras.
Vamos navegar juntos com o Cat Mousses do Rene e Dany, e o Alexander VI do Jack e Josie, ambos canadenses. O Rene é um desses aventureiros que topa qualquer parada, combinando muito com meu Próprio jeito, então formamos um grupo muito bom.
Dos outros brasileiros, alguns partiram ontem, e os outros estão indo hoje. Devemos todos nos encontrar no Minerva Reef.
Fico por aqui pois os outros barcos já estão saindo e estamos atrasados...
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terça-feira, outubro 06, 2009
Amarrado em poita em Neiafu, Vavau:
Exibir mapa ampliado
Posição: S18 39.343 W173 58.990 07/10/09 03:40h Local (UTC +13)
Acabamos de chegar a Neiafu e tive que motorar as ultimas dez horas, pois o vento acabou completamente.
A carta daqui esta um pouco fora para Oeste, e metade das luzes de entrada da baia de Neiafu estão fora de serviço, então foi uma ginástica entrar até aqui no escuro sem esses dois recursos importantes. Por sorte a lua esta nova e o céu limpo, aumentando a visibilidade a olho nu à noite.
Mesmo à noite, já deu para perceber que a água aqui é translúcida, e graças a isso eu não bati em um recife na frente do porto, enquanto procurava o cais da Emigração, que acabei não encontrando então parei em poita na frente da cidade.
Aqui é proibido dar descarga para fora do barco, tem que usar o tanque de águas negras e depois esvaziar fora da baia.
Levantamos a bandeira amarela, e de manha temos que fazer documentação, antes de sair do barco. Aqui eles são muito exigentes quanto a isso.
Viemos sozinhos porque o Pajé, Beduína e Canela foram para Niue. Nós estávamos cansados de ancorar fora dos atóis, então decidimos incluir Beveridge Reef e Vavau na nossa rota, excluindo Palmerston e Niue. Por outro lado, amanha nos encontramos com o Bicho Vermelho e o Sarava, mais dois barcos brasileiros por esses lados. Somos ao todo sete barcos brasileiros na área, acho que um recorde absoluto e um momento histórico, demonstrando o interesse crescente dos brasileiros na vela de cruzeiro.
domingo, outubro 04, 2009
Primeiro dia da travessia para Vavau:
Posição: S19 37 W170 16 04/09/09 09:48h Local (UTC-10)
Singramos 148 milhas nas ultimas vinte e quatro horas, e poderia ser um pouco mais não fosse um temporal que pegamos as duas da manha, que durou até as cinco. Pela primeira vez tive que por o barco em capa. Com mestra quase que totalmente aberta e no riso três e a trinqueta do mesmo lado da mestra (sota), andávamos a dois nós, e em um ângulo de trinta graus do vento, que chegava aos trinta e sete nós. As ondas entravam pela bochecha da popa com algumas batendo com força e passando por cima do barco.
A um certo ponto achei que ia perder o Dog-House que esta descosturando todo, pois a linha não resistiu ao sol. Quase todas as costuras do bimini e do dog-house feitas pelo Alex do Píer 26 estão arrebentando. Ele deve ter misturado linhas com resistência a UV com linhas simples, pois deveria durar bem mais.
Estimamos nossa aterragem para amanha a tarde, e se não der, fica para o dia seguinte.
De hoje para amanha, vamos adiantar um dia, e vamos estar um dia na frente do Brasil.
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sábado, outubro 03, 2009
A Caminho Das Ilhas Vavau, Tonga:
Posição: S19 58 W167 56 03/09/09 10:24h Local (UTC -10)
Hoje as oito da manha, saímos do Beveridge Reef a caminho de Tonga. Temos trezentas e setenta e cinco milhas até o waypoint do norte de Vavau, depois mais umas quinze milhas até a ancoragem em Neiafu. Nossa aterragem está estimada para a manhã do dia seis. O vento esta variando entre dez e quinze nós entrando pela popa. Estamos no rumo duzentos e setenta magnético, com as velas armadas em asa de pombo, e a mestra risada no primeiro riso, andando em media cinco nós e meio. O tempo está nublado, com algumas chuvas. A previsão sugere ventos de quinze nós vindos de leste, rondando um pouco para nordeste e depois firmando por uns dois dias em sudeste, todos bons para nos empurrar para Vavau.
Ontem me despedi do Beveridge Reef com uma boa pescaria, para suprir o PuraVida com peixes. Eles não sabem muito de caça submarina, então fui com eles e mostrei algumas técnicas do mergulho livre. Peguei três garoupinhas, um jaguariça (ou primo dele...) e dois xareis brancos, todos entre um e dois quilos. À noite eles me chamaram no VHF agradecendo e disseram que o sashimi de xarel e as postas de garoupa estavam deliciosos.
Ontem começou a me doer o rim esquerdo, e desde então estou bebendo tanta água quanto entra, ajudando com uma cervejinha aqui e ali, para dar uma boa enxaguada no sistema. Não preciso de uma pedra nos rins durante uma travessia...
Ontem também escutei pela primeira vez algumas rádios SSB do Brasil. O Dallas do PuraVida tem um livro com todos os broadcasts de noticias pelo SSB. Consegui ouvir radio Central do Brasil, em Goiânia e outra radio que acho que era do Senado. Foi bom ouvir um pouco do som do Brasil...
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sexta-feira, outubro 02, 2009
Beveridge Reef:
Posição: S20 00.820 W167 44.950 01/09/09 10:56h Local (UTC -10)
Agora que estamos livres de qualquer problema com relação ao Tsunami que ocorreu nas Ilhas Samoa, posso me concentrar em relatar nossa chegada e estadia no Beveridge Reef.
Aterramos em Beveridge Reef vindos de Aitutaki, por volta das dez horas da manhã, e já próximos ao recife lancei duas linhas na água para tentar um peixe de passagem antes de entrarmos no atol. Não demorou muito e uma das varas fisgou. Enrolamos a genoa, ficando somente com a mestra que já tinhamos risada no terceiro, e fui recolher o peixe. Vi que era pesado, mas estava bem fisgado, isso quando notei que estava recolhendo a vara errada! Na verdade as duas varas fisgaram ao mesmo tempo, mas não escutamos a outra. As linhas haviam se cruzado e o peixe estava na outra vara. Pedi ajuda para a Lilian, que enquanto continuava a recolher a primeira vara, eu fui trabalhar com a segunda. Vi que era um dourado, e conseguimos trazer até próximo ao barco, mas em um puxão mais forte, a linha arrebentou exatamente onde elas tinham se embaralhado... Pena, faz tempo que não comemos um dourado.
Rapidinho refiz uma das varas e lancei na água, enquanto ia contornando o recife para chegar ao passe. Não deu outra, bem no meio da entrada do passe, outro peixe fisgou. Esse muito maior, e quando fui fechando a fricção, vi que não ia segurar esse, pois a vara estava a ponto de quebrar, e é uma vara bem grossa. Nisso arrebentou a linha, bem na junção da linha com a isca, e lá se foi o segundo peixe.
Bom, sem peixe de passagem fisgado, entramos pelo passe, com uma corrente muito forte, segui um pouco mais para o meio do atol e virei para sul, para onde estavam ancorados os outros barcos que por aqui já estavam. Quando cheguei mais perto vi que eles estavam ancorados em uma parte bem mais rasa, e preferi voltar um pouco para o centro e ancorar em dez metros de água, pois nas imediações de onde ancorei haviam vários cabeços de coral e eu queria ir mergulhar.
Assim que ancoramos e preparamos o barco para a estadia no recife, vesti meu equipamento de mergulho e fui mergulhar. Água claríssima, parecia mais um aquário, e de cima já vi garoupas e caranhas de bom tamanho. Vi também conchas gigantes (pahuas) enormes, algumas com mais de trinta centímetros de diâmetro. Comecei a descer e colher pahuas, e trouxe cinco para o barco. Em um dos mergulhos, estava com a arma na mão e desci uns dez metros para pegar uma das pahuas, e quando cheguei perto, saiu debaixo do coral um xarel médio, de uns quatro quilos, e eu atirei instintivamente. O peixe ficou se debatendo e emaranhando o cabo do arpão por vários corais naquele cabeço, enquanto eu subi para respirar. Imediatamente reparei dois tubarões galha branca, maiores do que eu, vindo de longe. Eles ouviram o tiro e o peixe se debatendo e estavam procurando de onde vinha o barulho, e agora, o cheiro de sangue na água. Desci rápido para desembaraçar a linha e subir com o peixe, e enquanto estava fazendo isso me surpreendi com um deles passando no meio da minha perna e a menos de um metro da minha mão trabalhando o peixe. Consegui desvencilhar o peixe e subi, surpreendido pela agressividade do galha branca, que ficou procurando pelo peixe lá embaixo. Nadei de volta para o Matajusi, sempre olhando para trás para saber onde estavam os tubarões. De primeiro eles não me seguiram, mas depois começaram a farejar a trilha do peixe ferido e vieram atrás de mim. Cheguei à plataforma e pus o peixe para cima, ficando atento ao que os tubarões iriam fazer, mas eles não chegaram muito perto e se foram rapidinho. Voltei para o mergulho, mas dessa vez somente com um arpão havaiano e sem a parte do meio, só para me defender se algum tubarão chegasse perto demais, e fui explorar mais a área. Tinha muita corrente, então nadei contra a corrente examinando o fundo, e descia quando achava algo interessante. Em um desses mergulhos notei um linguado de bom tamanho no fundo, perto de onde eu tinha descido, mas desviei a atenção dele e ele sumiu na areia. Explorei bem a área, e colhi ao todo cinco conchas gigantes, com perto de trinta centímetros cada uma. Era o suficiente para comermos a bordo. Quando estava pondo mais duas conchas na plataforma do barco, notei o linguado, que estava me seguindo, embaixo do barco. Desci com a havaiana pequena mesmo e peguei o linguado.
Limpei os peixes e guardamos no freezer para outra hora, pendurando a carcaça do xarel na plataforma do barco para ver se os tubarões vinham pegar, enquanto eu me ocupava com a abertura e limpeza das conchas. Fui surpreendido de novo, quando um dos galha brancas mordeu a carcaça e, com a resistência do cabo que usei para amarrá-la na plataforma, ele começou a se debater e quase me deu uma rabada na cara. Em algumas debatidas e ele já tinha cortado o cabo e saiu levando a carcaça.
A Lilian preparou um molho de macarrão com as conchas, que ficou delicioso! Comemos, enquanto vimos todos os barcos ancorados levantarem ancora e atravessarem o atol até o lado leste, onde tem um pesqueiro que bateu no atol e ficou por ali. Almoçamos e levantamos ancora indo ancorar no leste do atol, junto aos outros barcos.
Por lá estavam o Canela, outro barco brasileiro na área, o Anima III e o Migration, que já conhecíamos de Aitutaki, e o Kovup, um pequeno veleiro que havíamos conhecido em Balboa, com três garotos franceses a bordo. Eu me lembrava deles bem, principalmente do Manu, que teve certa influência sobre minha travessia do Pacifico, pois quando ele disse que saía para as Marquesas no dia seguinte, eu perguntei se já não era tarde na estação para ir para as Marquesas, e ele respondeu que "nunca é tarde"! Isso me impressionou na hora e em seguida tomei a decisão de partir também. Se um garoto Francês ia com seu barquinho vermelho para as Marquesas, o Matajusi ia também, e aqui estamos, juntos novamente depois de seis mil milhas navegadas...
À noitinha notei que vários botes haviam ido para o Canela, e chamei o Canela pelo VHF. Eles estavam fazendo um happy hour, e o Martin do Anima III e o Gustavo do Canela iam tocar violão. Na hora me convidei para me juntar a eles e tocar flauta. Fizemos um som muito gostoso, tocando até tarde da noite. Eu e o Martin tocávamos, com o Gustavo acompanhando algumas músicas, e os outros cantavam. Que gostoso! Essa é uma das atividades que mais gosto de participar.
Voltei tarde para o Matajusi e a Lilian estava assistindo um filme. Terminei de assistir com ela e fomos dormir.
No dia seguinte chegaram o Pajé e o Beduína e tivemos toda aquela movimentação sobre o Tsunami. Todos os barcos foram embora do recife, e Matajusi, o Pajé e o Beduína ficamos com o recife só para a gente, indo ancorar na mesma área ao leste do recife onde estávamos antes. Mesmo tendo dormido bem, o estresse causado pelo Tsunami nos cansou, e fomos todos dormir cedo nesse dia, mas combinando uma pescaria para cedo do dia seguinte.
Falou em pescaria e levanto a hora que for preciso, então as sete horas já estava de pé, e me preparando para o mergulho. Acabamos saindo só umas dez e meia, indo o pessoal do Beduína e do Pajé no bote do Beduína e eu e a Lilian no nosso botinho de brinquedo.
Explico. O nosso botinho laranjinha, um Flexboat de 8 pés, tipo Miniflex S, com fundo chato e feito de hapalon, é totalmente impróprio para esse tipo de viagem, pois o fundo chato não permite que plane, as bolachas são muito pequenas e baixas, entrando água na menor das ondulações, e elas entortam com a força do motor, dobrando o espelho de popa e fazendo com que o motor fique quase que debaixo do bote. Esse é o menor bote que já vimos na nossa viagem. Na verdade eu comprei errado, pois o propósito desse bote é ficar enrolado dentro do barco, como um bote reserva no caso de se perder o bote principal. O bote principal deve ter, bolachas largas, no mínimo duas vezes mais largas do que a do miniflex, fundo rígido, espelho de popa forte, para agüentar um motor de até quinze cavalos, muito mais comum nos outros barcos do que os motores menores, com 3 a cinco cavalos. Deve ser de hapalon, e ter no mínimo 8 pés, mas se puder ser maior, melhor, contanto que caiba no barco mãe. Na Venezuela fabricam o Caribe, que é um dos melhores botes que já vi por aqui, e muito comum entre os cruzeiristas fazendo essa viagem, pois todos passaram pela Venezuela. Tem também outro, o A&B, muito parecido com o Caribe. Quando chegar à Nova Zelândia, troco de bote e talvez de motor. Até lá, nos encharcamos em todas as nossas saídas no laranjinha. Por causa disso, aprendemos a andar de pé no botinho, o que é estranho, visto pelos outros barcos, mas se não fizermos isso, chegamos encharcados à festa!
Mergulhamos quase que o dia inteiro, começando por uma passada no veleiro afundado que está bem à nossa frente no leste do atol, com metade do barco acima da água e a outra metade encravada na areia e nos corais. Lá encontrei um rolo com centenas de metros de linha de pesca duzentos, vermelha, muito usada nos espinhéis de alto mar e tirei uns cem metros para usar no barco, talvez até como moeda de troca ou presente para pescadores encontrados pelo caminho. Depois fui caçar umas garoupinhas, evitando as grandes por causa da ciguatera, e trouxe sete garoupinhas em torno de um quilo no final do mergulho.
Fui no laranjinha sozinho, e fiquei tentando vários lugares, alguns nos corais próximo à barreira, outros mais no centro do atol, onde tinham vários cabeços próximos um do outro. Em um dos mergulhos vi um tubarão assustado que quando me viu saiu em disparada, e em outro um mais assanhado que chegava perto demais para meu conforto. Acabei atirando nele, mas o arpão bateu nele e voltou. Faz muito tempo que não atiro em tubarões, desde meus vinte e poucos anos de idade quando ia com alguma freqüência para Fernando de Noronha, só para caçar tubarões. Naquela época, tubarão era bicho ruim, melhor morto do que vivo. Lógico que hoje não se pensa mais assim, e os tubarões são uma grande fonte de renda pelos lugares onde passamos, pois muitos turistas pagam para vê-los debaixo d'água, sendo alimentados pelos mergulhadores treinados em fazer isso. Fiquei aliviado de não tê-lo matado, e ele ficou bem mais experto comigo, sem chegar mais perto. Não parece que o arpão tenha feito qualquer estrago. Ficou somente uma manchinha branca onde o arpão bateu. Logo ele se foi e eu continuei meu mergulho.
No final do dia, combinamos de jantar todos no Beduína, com a Gislayne preparando um cação que o Mario e o Hugo pegaram, a Lilian com o arroz e as batatas, e a Paula com os aperitivos de entrada. Tudo estava delicioso, e ficamos um bom tempo conversando, conversas de cruzeiristas.
Hoje de manhã, o Pajé e o Beduína levantaram ancoras e seguiram para Niue, e eu continuei ancorado, pois quero ir direto para Tonga, sendo Niue mais um lugar onde se ancora do lado de fora e estamos cansados disso por hora. Além disso, vimos o PuraVida dos americanos chegando à Beveridge e queremos devolver o convite de aperitivos a bordo que eles nos estenderam em Papeete. Temos encontrado com eles em vários lugares por onde passamos a acabamos zdesenvolvendo uma amizade. Hoje convidei-os para uns drinques a bordo do Matajusi.
Enquanto isso estamos arrumando o barco, fazendo água, e escrevendo.
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quinta-feira, outubro 01, 2009
Tsunami, Ultimo Boletim:

Informação da equipe de apoio no Brasil: Veja na figura em vermelho as coordenadas do terremoto e do tsunami Posição: Ancorado dentro do Beveridge Reef 01/10/09 08:22h Local (UTC-10)
Ontem ouvimos do Ituska pelo SSB e eles estão ancorados nas ilhas do sul de Tonga, pegando surf. Não sentiram qualquer alteração de maré por lá, e tem pego ondas boas. Ouvimos também do Bicho Vermelho e do Sarava, que estão ancorados nas ilhas norte de Tonga, e não tiveram mais qualquer alteração de maré ou ondas. O Canela esta chegando hoje em Niue e vão nos reportar estado de lá. O Pajé e o Beduína, continuam ancorados no Beveridge Reef, e devem sair hoje com direção a Niue. Nós ainda estamos avaliando a situação, e devemos sair entre hoje e amanha para Niue, ou Vavau em Tonga.
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terça-feira, setembro 29, 2009
Tsunami, Boletim Matajusi 2 - Barcos brasileiros na area:
Exibir mapa ampliadoPosição: Fora do recife de Beveridge 29/09/09 13:11h Local (UTC -10)
Conosco estão o Pajé, Beduína, e Canela, todos bem, e ouvimos do Bicho Vermelho que esta em Vavau que eles ouviram o alarme na radio local e desamarraram da bóia e foram para águas mais profundas, e que alguns barcos não saíram a tempo e acabaram no seco ou em cima de pedras. Só não sabemos do Ituska que esta em TongaTapu, mas ele deve entrar na nossa freqüência 8143 as 19h local. Ja consegui pegar os boletins da NOAA e vamos ficar acompanhando. Tudo e todos bem a bordo.
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MATAJUSI EM AREA DE TSUNAMI:
Posição S19 59.617 W167 46.893 29/09/09 11:44h Local (UTC -10)
Primeiro quero informar que estamos bem, sem qualquer problemas com relação ao Tsunami que esta passando pela área. Estávamos dentro do Beveridge Reef e não sentimos qualquer mudança.
Não sabemos muito a respeito do Tsunami outra que foi no sul de Samoa, e que tem áreas destruídas por perto de onde estamos. Assim que soubemos da noticia, que veio pelo Marcelo do Bicho Papão via Iridium para o Pajé, que nos passou por VHF, pois eles já estavam do lado de fora do recife e não entraram, levantamos ancora e saímos do atol. Estamos agora em capa aguardando novas noticias.
Ainda não decidimos, mas acho que vou direto para Vavau, uma área mais protegida do que Niue.
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quinta-feira, setembro 24, 2009
Continuo ancorado em Aitutaki:
Posição S18 51.546 W159 48.843 19:36h Local (UTC -10)
Uma nova e fascinante experiência que tivemos foi ouvir o respirar de uma baleia do lado do barco à noite, e quando saímos para ver a baleia, outra respirou bem na proa do barco, borrifando água na nossa cara. Depois disso, ouvimos uma longa conversa entre uma baleia mãe e seu filhote, que reverberava dentro do barco, refletida pela água.
Mudei a ancoragem para tentar evitar o balanço lateral à noite, mas não melhorou muito. Ancorei ao sul do passe, onde tem mais areia no fundo do que o lugar onde estávamos antes, para tentar jogar uma ancora de proa e manter o barco de frente para o swell. No final não deu certo porque o fundo é muito irregular, com picos de coral e vales de areia que variam uns 15 metros entre uns e outros.
Combinamos um almoço de comemoração dos aniversários do Hugo do Beduína e meu para o dia 21, pois não conseguimos entrar pelo passe a noite do dia 20 para comemorar o do Hugo. A Lilian preparou o almoço consistindo de tortilhas mexicanas de milho com dois recheios a escolher, carne moída com berinjela ou frango desfiado com azeitona, cebola e alho e preparou também os brigadeiros. A Paula do Pajé contribuiu com uma torta de limão, e a Gislayne do Beduína se encarregou de fazer o bolo.
Antes do almoço fomos à vila para tratar da documentação de entrada nas Ilhas Cook, e caminharmos um pouco pela cidade. Não custou nada fazer a entrada dos barcos nem a dos tripulantes. Vamos ver na saída se custa algo.
No dia vinte e dois, fomos de botinho para o outro lado do atol, levando o kite do Mario do Pajé. O Mario, a Paula e o Hugo andaram de kite, e eu fiquei treinando dominar o kite, mas sem prancha. Depois de ter o kite na mão, tentei usar a prancha mas não consegui andar muito. Foi minha segunda experiência com o kite e preciso treinar mais para dominar o bicho.
Ontem à noite fomos todos jantar em um restaurante com show de danças locais, e tivemos a sorte de ver um grupo de dançarinos locais que vieram da Nova Zelândia para as competições que estão acontecendo em Aitutaki essa semana. Comemos e dançamos muito, e voltamos tarde para os barcos. Tivemos que sair para fora do passe tarde da noite, e posso dizer que foi punk. Eu havia esquecido de ligar alguma luz no Matajusi, então ficamos caçando ele no mar do lado de fora do atol com uma lanterna pequena. Finalmente o encontramos e foi um alivio!
Hoje alugamos um carro e fomos conhecer o atol inteiro e estivemos em lugares muito bonitos. Um desses lugares foi o topo da ilha, de onde se tem uma vista da beleza desse atol. Depois fomos ao extremo da ilha onde se cruza a pé mesmo um canal que separa a ilha principal de um motu com um hotel. Eu e a Lilian atravessamos com uma balsa que fica por lá, e do outro lado do motu encontramos com o Hugo e a Gislayne que haviam atravessado a pé mesmo, caminhando pelas águas rasas que separavam os dois motus.
No final do dia, retornamos ao cais e ficamos conversando um pouco, enquanto o Mario ia devolver o carro alugado. Como o carro era pequeno e não cabíamos nós sete, o Mario fez duas viagens para ir e para voltar. Eu e a Lilian voltamos na primeira leva, e paramos em um mercado para comer e beber algo. Quando estávamos começando a arrumar as coisas para levar para o bote, parou uma mulher de moto perguntando se tinha algum Silvio no grupo. Logo pensei que seria algum problema com meu barco ou minha documentação, mas ela tirou do bolso a MINHA carteira, que sem eu saber, havia caído do meu bolso no mercado onde paramos para tomar um lunch. Eu tinha todos meus cartões de credito, mais dólares, euros e dólares zelandeses, e mais meus documentos. Ela havia encontrado no chão do mercado, abriu e saiu procurando pelo Silvio da foto da carteira de motorista. Foi primeiro ao aeroporto e depois, viu minha carteira de capitão e resolveu ir até o píer da cidade, onde me encontrou. Eu disse para ela ser eu um cara de sorte, e que minha sorte continuava, com a devolução da carteira que nem eu sabia que havia perdido, e que ela era uma pessoa honesta, que continuava a ser honesta, devolvendo uma carteira cheia de documentos e de dinheiro.
Voltamos aos barcos, já cansados, e quando estávamos indo de volta para o Matajusi e Pajé ancorados fora do atol, entrou um Pirajá de chuva com ventos fortíssimos, e eu e o Mario ficamos preocupados com a ancoragem dos nossos barcos. Fomos rápido para os barcos, chegando lá completamente encharcados dos respingos de água salgada que o vento borrifava na gente. Felizmente os dois barcos estavam bem ancorados e seguraram firme.
Do lado do meu barco havia ancorado um veleiro enorme, com cento e setenta pés, fazendo o Matajusi parecer um botinho de brinquedo. Como estava ventando muito forte, fui varias vezes ver se ainda estávamos no mesmo lugar, usando o veleirão como referencia. Numa dessas saídas, quando retornava para dentro do barco pisei na farpa do arpão que havia deixado no pé da escada quando saímos de manha, o que me custo um belo corte embaixo do dedo do meio do pé, que se estendeu por baixo da sola do pé por quase dois centímetros. Limpei bem o corte, com água e sabão, passei triplo-antibiotico e fechei com um curativo. Se precisar uns pontos vou amanha ao centro medico da vila.
Estamos planejando sair amanha para Beveridge Reef, um recife desabitado no caminho entre Palmerston e Niue, onde podemos ficar ancorados dentro dele e descansarmos por uns dias, pois fazem mais de uma semana que dormimos mal. Primeiro com a travessia sacudida entre BoraBora e Aitutaki, e depois com o balançar forte do barco na ancoragem do lado de fora de Aitutaki.
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segunda-feira, setembro 21, 2009
Ancorado em Aitutaki
Exibir mapa ampliadoPosição S18 50.873 W159 48.257 17:36h Local (UTC -10)
Viemos na vela até a ancoragem, mas tive que reduzir bastante as velas, pois precisava chegar depois do amanhecer. Lá pelas quatro da manha abri mais dez graus para boreste, para ter certeza de que, se dormíssemos, não acertaríamos o atol, passaríamos direto pelo norte. Deu tudo certinho e aterramos as seis e meia da manha. Baixei mestra e mais tarde enrolei genoa e baixei trinqueta e entrei na área do ancoradouro no motor. Para nos saudar, vieram duas baleias, uma mãe e um filhote. Depois de procurar um pouco, joguei ancora a nove metros e dei quarenta metros de corrente.
Assim que arrumamos o barco fui dar um mergulho para checar a ancora e por via das duvidas levei meu arpão havaiano que é só o arpão preso a um elástico na ponta. Ele não tem muita força, e precisa atirar de muito perto, mas como defesa no caso de um tubarão mais assanhado, serve bem, pois é bem longo e mantém o bicho a distancia.
A âncora e corrente estão completamente enroladas em corais e já sei que vai dar trabalho para sair. Aproveitei e peguei uma garoupinha para um filezinho de peixe mais tarde. Primeiro temos que perguntar se podemos comer esse peixe aqui e, se não, vai para os tubarões. Tem muita garoupa por aqui, e são muito mansas, fácil de pegar, mas eu prefiro as pequenas que tem menos risco de ciguatera.
Voltei ao barco, limpei o peixe e o Mario do Pajé chamou no VHF perguntando se queríamos ir à terra com eles. Logo topamos, pois nosso bote de brinquedo não agüenta passar pelo passe, e fomos com eles dar um abraço no Hugo do Beduína, que hoje faz quarenta e cinco anos. Ficamos por lá batendo papo um pouco e o Mario sugeriu um mergulho para tentar umas lagostinhas. Lá fomos de volta para a água e ficamos boa parte da tarde mergulhando. Muito peixe, mas nada que soubéssemos que podíamos comer. Em geral, somente os peixes de passagem podem ser consumidos. Logo que cai na água vi um peixe parecido com a nossa sororoca, mas achei que iria ver outros e não peguei. Acabou que foi o único peixe de passagem que vi no mergulho. Aproveitei e catei uma dúzia de trocas, um caramujo em forma de cone que esta ficando raro em algumas ilhas por ser comestível e por ter uma concha muito bonita depois de polida. O Mario disse que não ia comer, então devolvi todas menos cinco e voltei ao barco. Pelo VHF chamei o Dallas do PuraVida, aquele catamaran americano que salvei de se arrebentar nos recifes em Huahine, pois eles estão dentro do passe, ancorados no píer da cidade, e pedi para ele checar com os locais se esses caramujos eram comestíveis e como se preparava. Ele foi buscar dois garotos da cidade e os trouxe até o barco para ver os caramujos. Os garotos confirmaram que eram trocas e que eram comestíveis, e que para preparar tinha que ferver em água (usei 30% de água do mar) e depois só tirar a coisa toda de dentro. Tem muita coisa lá, então, sem conhecer melhor, separei somente a carne firme. Tem uma carne clarinha, e depois de tudo limpo e cortado em pedaçinhos, fritei na margarina. Ficou uma delicia com uma cervejinha gelada! Uma pena jogar as conchas fora porque elas são mesmo lindas depois de polidas, mas, parece que são proibidas na Nova Zelândia, então vamos evitar conflitos por lá.
Às dezenove horas entramos na freqüência 8143 e tinham seis barcos brasileiros falando, incluindo o Matajusi, Beduína, Pajé, Ituska, Canela e Bicho Vermelho. Os três primeiros estão em Aitutaki, o Ituska esta indo para um recife desabitado no caminho de Palmerston, o Canela esta em Rarotonga e o Bicho Vermelho esta em Niue. Trocamos informações sobre os lugares que os outros já passaram para aproveitarmos melhor nossa passagem por lá.
Amanha vamos à cidade fazer a documentação de entrada nas Ilhas Cook, e depois vamos comemorar meu aniversario e o do Hugo no Beduína, com almoço preparado pelas namoradas e esposas do grupo. Vou levar um pouquinho das trocas para eles experimentarem. Interessante que não achei nenhum polvo, mas troquei por troca!
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